Estou condenado à profissão que me formei?

De modo geral, na nossa sociedade, cada vez que a gente escolhe uma faculdade, um curso ou alguma vaga de emprego, há um tendência em se especializar, querendo ou não, em algum perfil profissional. Vou dar meu exemplo: eu me formei em Publicidade e fiz um Domínio Adicional em Empreendedorismo. Ao longo da faculdade, sempre me envolvi mais com Marketing e Direção de arte. Por causa das minhas experiências profissionais e cursos, acabei indo para o lado do Marketing Digital, e me tornei uma empreendedora “especialista” em Marketing Visual para Web. Hoje em dia, quase sempre que sou procurada profissionalmente, é por causa do Design e do Marketing Digital.

Talvez um processo parecido tenha acontecido com você, e talvez você tenha ido parar numa profissão que hoje já não seja mais o suficiente para os seus sonhos. Entre os 20 e 30 anos isso é, de certa forma, comum de acontecer. Em nossa sociedade – especialmente no Brasil – não existe uma cultura de planejamento de carreira, e quando existe, esse planejamento praticamente te formata a um perfil profissional específico e, no fim das contas, você se vê casado com uma profissão e não com um propósito. A questão é que nós, seres humanos, somos seres mutáveis, feitos de ciclos e fases. Como um ser mutável pode permanecer a vida inteira fazendo a mesma coisa? Começamos a vida sendo filhos. Crescemos, nos tornamos indivíduos independentes, depois cônjuges, pais, avós… Em cada uma dessas fases, desempenhamos papéis e funções diferentes, que nos remetem a mudanças e desafios. A realidade humana parece ter se tornado, de modo geral, incompatível com a realidade profissional vigente.

Com a revolução industrial,  a tendência à valorização do profissional especializado se tornou um discurso comum – naturalmente, quando se trata de processos automatizados, a especialização tornava o processo mais veloz e diminuía as falhas potenciais. Embora a evolução tecnológica tenha uma “dívida de gratidão” com a Revolução Industrial, não podemos ignorar que a inovação, altamente importante na atual “era” da informação e da tecnologia que vivemos, depende fortemente da convergência de saberes que, em tese, seriam “incompatíveis”, o que fica difícil quando alguém tem uma visão de mundo voltada para apenas um assunto, profissão ou função. Para gerar evolução tecnológica,  é necessário estabelecer um processo de aperfeiçoamento que se dá por meio da repetição – ou seja, todo dia o “apertador de parafusos” aperta parafusos, e com isso, passa a conceber técnicas para apertar seu parafuso melhor e mais rápido. Já para gerar inovação, há uma certa necessidade de subversão. Seria necessário que o “apertador de parafusos” questionasse sua função e vislumbrasse possibilidades fora de seu cotidiano industrial. As maiores descobertas do mundo que hoje baseiam processos importantes se estabeleceram com uma boa dose de inconformismo e convergência de conceitos que, muitas vezes, eram muito mais intuitivos que científicos a princípio.

Você certamente ouviu falar de sistema binário – o sistema base para o funcionamento dos computadores hoje – mas dificilmente ouviu falar de Gottfried Wilhelm Leibniz.  Leibniz  foi um filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário alemão do século XVII (sim, no século XVII, ao contrário de hoje,  dava para ser isso tudo ao mesmo tempo). Ele trabalhou durante a maior parte da sua vida buscando provas legais genealógicas do direito ao título de aristocracia para seus clientes – uma função ou profissão que sequer tem nome. De acordo com a Wikipédia, Leibniz “descreveu o primeiro sistema de numeração binário moderno (1705), tal como o sistema numérico binário utilizado nos dias de hoje” e “demonstrou genialidade também nos campos da lei, religião, política, história, literatura, lógica, metafísica e filosofia”. Provavelmente nos dias de hoje, Leibniz seria aconselhado a visitar um psicólogo para resolver sua “falta de foco profissional”. Ainda, segundo a Wikipédia, “em 1666 escreveu De Arte Combinatória, no qual formulou um modelo científico que é o precursor teórico de computação moderna: todo raciocínio, toda descoberta, verbal ou não, é redutível a uma combinação ordenada de elementos tais como números, palavras, sons ou cores.” Sendo assim, o sistema binário que conhecemos hoje, e que está sendo indiretamente usado por você enquanto lê esse texto em seu computador, surgiu da teoria filosófica de um homem que não sabemos exatamente dizer que profissão teve de tanta coisa que ele fez e foi. É interessante o quanto tendemos a limitar nossas próprias vidas inteiras ao exercício de uma única função. Não somos relógios, somos pessoas! Cada dia pensamos de um jeito novo, descobrimos coisas novas, testamos e invalidamos coisas novas e antigas. É impossível esperar de um ser “mutante” que ele seja sempre a mesma coisa a vida toda.

O sistema binário que conhecemos hoje, e que está sendo indiretamente usado por você enquanto lê esse texto em seu computador, surgiu da teoria filosófica de um homem que não sabemos exatamente dizer que profissão teve.

Mas respondendo à pergunta que intitulou esse artigo: será que estamos condenados à profissão que nos formamos? Será que um contador, um enfermeiro, um publicitário, nunca poderá ser nada além da profissão que se formou? Acho que tudo que foi dito até agora já responde: pare de encaixotar sua vida, como se tudo sobre seu futuro e profissão dependesse da capacidade de ser encaixável no que já existe. Claro que, para que tenhamos um mínimo de organização e de planejamento, é natural usarmos alguns conceitos previamente formulados sobre nós mesmos – o que não é de todo ruim – mas, por favor, não se limite a isso. Não se limite a uma profissão, a um perfil, a um olhar. Por outro lado, não pense: “vou ser feliz e jogar fora tudo que aprendi até hoje”. Não seria nem um pouco inteligente da sua parte. A melhor solução é: se sua profissão não casa hoje com seu propósito, faça-a convergir para ele! Encontre interseções entre tudo que você viveu e o que deseja viver, de forma que esses pontos em comum te levem a um novo lugar alinhado aos seus valores. Pense em combinações entre suas experiências anteriores, seu futuro e as necessidades das pessoas, por mais desconexas que possam parecer. Naturalmente, isso pode te levar até a profissões que não tem ainda sequer um nome, mas não tenha medo disso; há 30 anos atrás, não existiam personal trainers, por exemplo, mas existiam datilógrafos formados em cursos renomados.

efeito-mediciHá um livro que li ainda na faculdade que aborda muito sobre isso: O Efeito Médici, de Frans Johansson. Recomendo a leitura. Fala justamente sobre como combinações aparentemente sem sentido – como a de um filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário – podem resultar em grandes inovações. Por isso, você não está “condenado” à sua profissão – um homem de mente livre não pode ser condenado a nada – só tenha a consciência que nada na sua vida é descartável. Suas experiências, seus problemas, seus traumas, derrotas e vitórias, deram a você uma cosmovisão exclusiva, capaz de revelar algo que alguém ainda não notou, ou que deu pouca atenção. Use toda a sua vida a favor de cumprir o que você veio fazer na Terra.

Teste agora mesmo: escreva num papel tudo que você faria se não precisasse pagar suas contas. De que forma você escolheria ajudar os outros? Que caminhos são possíveis dentro de quem você é e do que faz hoje para chegar a essa realidade? O primeiro dia da sua mudança será hoje, se assim você decidir. Eu acredito nisso!

O que achou? Comente aqui!